Antes de começar a falar sobre os fundamentos de uma casa de Umbanda que é o motivo desse texto. Eu gostaria de explicar algumas coisas que fundamentam a minha visão.

Sou de um tempo onde as casas de Umbanda possuíam mais assistência do que médiuns e mais médiuns do que dirigentes. Onde nós aprendíamos Umbanda com os chefes espirituais e físicos da casa, assim como, com as nossas entidades quando já possuíamos firmeza o suficiente para isso.

O terreiro que frequentávamos era a grande escola. Não era em cursos ou na internet que buscávamos informação, até por que os mesmos não existiam na época. Livros eram de difícil acesso e raros de se encontrar. Aprendíamos por meio empírico, através da observação e de conversas com o dirigente e com as entidades.

Mesmo nesse período, eu aprendi que cada núcleo de Umbanda é um organismo vivo, que se ajusta e se adapta de acordo com as necessidades espirituais e materiais da casa, assim como, as de seu corpo mediúnico. Onde as regras e os fundamentos de apoio, sim existem fundamentos basilares e de sustentação, são adaptáveis, ajustáveis e mutáveis pela regência da casa de acordo com os objetivos pretendidos. Aprendi que nada é fixo e tudo está em constante mudança, em transformação e em aperfeiçoamento.

Diferente de hoje, onde os médiuns procuram aprender mais através da internet, em livros e em cursos do que com a “sua”própria casa.

Nada contra ao estudo e ao aprendizado, deste que os mesmo sejam para a melhoria e desenvolvimento interno do individuo e da Umbanda.

Sei que alguns vão dizer que isso é fruto da evolução e que as coisas se desenvolvem e eu concordo com isso. Tanto que, eu mesmo ministro curso de Umbanda. Porém quando os realizo a primeira coisa que eu ensino é que cada terreiro é uma escola, cada terreiro tem seus próprios fundamentos e que os fundamentos de uma casa é uma coisa sagrada onde se aceita ou não.

Só que hoje temos médiuns com imensa bagagem de informação, pouco conhecimento, prática e experiência quase que nenhuma. Onde o modo empírico de aprendizagem quase não já não existe e acreditam que a Umbanda é uma receita de bolo, onde basta copiar o que está no livro ou o que viu no curso e já está feito. Porém eu sempre soube que copiar uma receita de bolo não fazia de mim pasteleiro (confeiteiro).

Aprendi com minha mãe de santo o seguinte:

“Filho: na casa dos outros entramos se formos convidados,

sentamos se nos permitirem e tomamos café se nos servirem.”

Ou seja, respeitar as normas e as regras da casa dos outros é uma questão de educação e de bom-senso.

Assim, quando falamos de fundamentos de uma casa de Umbanda temos que entender o seguinte: nenhuma casa possui em sua fundamentação de trabalho os mesmos princípios, as mesmas regras e os mesmos fundamentos.

Existem sim, preceitos básicos que são encontrados na maioria das casas e mesmos assim, os mesmos não podem ser generalizados.

Os preceitos, a visão e a fundamentação de uma casa de Umbanda variam de acordo com a linhagem e a “bagagem” (conhecimento e vivência) do dirigente, mas acima de tudo das orientações e dos propósitos da espiritualidade regente da casa. A não observância dessa realidade leva muitas vezes a julgamentos incautos e desnecessários que geram desarmonia e desequilíbrios aos médiuns, a assistência e a casa.

Os Guias chefes de uma casa de Umbanda possuem seus próprios propósitos e objetivos ao assumirem o camando de uma casa. Propósito esse não compartilhado com todos os membros da casa. Até por que nem todos estão aptos a entender, pois a densidade da matéria imprimi em nós outras formas de ver e perceber as coisas. Porém, são eles os grandes responsáveis pelo direcionamento de um terreiro. Pois são eles que dão a sustentação, a proteção e a guia (caminho, direção) que uma casa e seus médiuns devem seguir para atingir os objetivos e compromissos por eles assumidos.

Assim cada Templo de Umbanda tem suas regras, sua ritualística e devem ser respeitadas. A falta de respeito gera dissonância psíquica, emocional e espiritual com a estrutura da casa o que a seu tempo acaba por ser desfavorável para o médium, principalmente se forem as suas ações responsáveis por desordem e desequilíbrio no terreiro e na corrente. Pois a sensação de desconforto e de desamparo da egrégora se torna cada vez maior devido a falta de conexão vibratória e espiritual do médium com a coroa da casa.

Não é a casa que tem que se adaptar ao médium e sim o médium que tem que se adaptar a casa.

É preciso entender que nenhuma casa de Umbanda está aberta para satisfazer a visão, a vontade de seus frequentadores, sejam eles da assistência ou da corrente mediúnica. A casa está aberta para atender um propósito maior da espiritualidade. Toda casa de oração existe para dar orientação, suporte e ajuda para a pessoa se resolver, se equilibrar, se transformar, se fortalecer e a partir daí ter as condições de construir uma vida mais próspera, equilibrada e harmónica.

Assim, devido a grande quantidade de informação disponível, cada vez mais temos templos de Umbanda a serem questionados e confrontados com filosofias e ensinos externos. O que não deveria ser um problema se os médiuns também procurassem respeitar e aprender com a casa que o acolhe. Seja de modo empírico, ainda o mais tradicional ensino de Umbanda ou mesmo na forma de cursos. Procurando o seu aprimoramento interno, em vez de simplesmente ficar à procura de fórmulas magicas e ferramentas e conhecimentos e ensinamentos externos.

Lembro que não existe terreiro perfeito, não existe dirigente perfeito, não existe médium perfeito e vou mais além, para desencantos de alguns: não existe Guia (entidade) perfeita.

Somos todos seres humanos em aprendizado, em evolução e sujeitos a erros, enganos e desacertos

Porém existe o terreiro que você se adapta, o dirigente que você gosta, ou não.

Existem médiuns que se ajustam mais facilmente as normas e fundamentos de uma casa e médiuns que não.

O que não dá é para o médium chegar e tentar mudar, transformar e alterar normas, padrões, fundamentos da casa que ele frequenta para que a mesma se adapte a sua visão ou pior, a sua vontade.

Caso você ache que algo esteja em dissonância com a visão de sua casa, fale com seu dirigente, com os Guias e não com os outros médiuns da corrente, pois quem pode lhe explicar ou alterar alguma coisa são eles, caso achem necessário. Não fique confabulando, especulando, cochichando, gerando especulações, etc. Pois isso só criará desarmonia para si, para os médiuns (corrente mediúnica), para a assistência, para o dirigente e o pior para casa.

O importante a observar são os resultados. Se os resultados são positivos para a maioria, óptimo. É impossível agradar a todos.

Se o método do “seu” terreiro está fazendo bem, está mostrando resultados aceite como ele é e não faça críticas destrutivas, não fique a apontar o dedo, não faça daquele ambiente um ambiente desarmonioso. Procure sempre agir para lá ser o melhor ambiente possível para você se desenvolver.

Caso não concorde com a fundamentação e método de sua casa, saia e procure um outro local. Porém, caso você não ache nenhum outro local que lhe agrade é melhor começar a olhar para si mesmo e tentar perceber se o problema não está em você.

Reflicta sobre isso!

Heldney Cals