Depois de algum tempo frequentando a Umbanda, quando tinha aproximadamente catorze anos escutei pela primeira vez esse ensinamento por partes dos Guias que assessoravam D. Francisca[1].

De início não entendia bem o que os Guias queriam dizer com essa afirmação, por isso, me concentrava com todas as minhas forças na hora de tomar um passe ou mesmo receber o receituário mágico dos Guias.

Porém, todas as semanas eu ia ao terreiro, e todas as semanas, na hora em que eu era atendido escutava o mesmo ensinamento: “filho, o trabalhador é meu, mas o pensador é seu!” E assim eu me concentrava com todas as minhas forças no meu intento, no meu objetivo, na minha necessidade enquanto os Guias trabalhavam.

Assim, passaram-se semanas, meses e eu continuava a escutar essa afirmação por parte dos Guias.

Com o passar do tempo, já enfadado de tanto escutar essa afirmação, eu já nem deixava os Guias terminarem, já os citava no meio da frase. Até que um dia, já aborrecido com a situação questionei um dos Guias.

“Meu pai, o que o senhor quer dizer com isso?”

No que obtive a seguinte resposta:

“Pegue essa vela, leve ao mar ao amanhecer e ofereça a mãe Iemanjá e peça para ela lhe ensinar”.

Assim fui eu, no nascer do dia levar minha vela para mãe Iemanjá.

Cheguei na praia, cumprimentei mãe Iemanjá, molhei minha testa, minha coroa e minha nuca com água do mar, sentei na areia, fiz um buraco, acendi minha vela e fiz minha oração a mãe do mar, a mãe da vida e pedi que ela me dissesse o que os Guias me queriam dizer com a afirmação: “o trabalhador é meu, mas o pensador é seu!”

Assim fiquei olhando o mar, a espera da vela acabar e de uma resposta. E nada de resposta, só o som das ondas do mar e o burburinho de algumas pessoas que passavam. Quando a vela acabou, resolvi ir-me embora.

Juntei o resto da vela na areia e me levantei. Nessa hora tive um “insight”, uma intuição e pensei: ”Não adianta eu pedir e me concentrar nos meus objetivos durante os trabalhos dos Guias, se eu não mantivesse meu pensamento focado, disciplinado no que desejava alcançar.”

Fiquei excitado com essa perspectiva e não via a hora de voltar para o terreiro e contar para os Guias o que havia “descoberto”.

Quando contei minha descoberta, o Guia confirmou meu pensamento, o que me levou a perguntar.

– “Meu pai, mas como faço isso?”

A resposta, hoje eu sei, não podia ser diferente: – “Pegue essa vela, vá numa pedreira e firme para Xangô para que ele lhe ensine.”

Decepcionado, segui dias depois para uma serra próxima da cidade em que eu morava, e o mesmo aconteceu, depois de um período de silêncio, quando já me ia embora um novo “insight”, uma nova intuição, um novo pensamento me veio a cabeça: “Não existe magia para isso, o que existe é comprometimento com seu ideal, sua  força de vontade, seu esforço, sua fé e sua disciplina, e isso, só você pode fazer por você.”

Passado anos, hoje entendo mais do que nunca esses ensinamentos, hoje eu percebo que a ação dos Guias, independente de seus graus hierárquicos, dependem muito da nossa resposta a seus ensinamentos e a sua magia, pois cabe a nós a responsabilidade de fazermos nossa parte e cuidarmos melhor de nossos pensamentos, sentimentos, acções e emoções. Pois só assim estaremos criando sintonia com eles e com sua magia, permitindo assim que eles façam à sua parte com maior eficiência. Afinal esse é outro ensinamento constante por parte dos Guias.“ Eu faço a minha parte, mas você tem que fazer à sua!”

Assim, pense se você está de facto comprometido em fazer a sua parte antes de jogar a culpa ou as responsabilidades para as mãos dos Guias, que com zelo fazem a parte que lhes cabem sem prometer ou mesmo esperar de nós milagres. Apenas pacientemente aguardam que amadureçamos e possamos ter o comprometimento com nossas próprias perspectivas e que assim possamos fazer a parte que nos cabe

Heldney Cals

[1] Minha primeira dirigente espiritual.